Gastronomia por Roberta Sudbrack
06/05/2008 ..
Quem é?
Quando morei nos EUA, na época em que cheguei a acreditar que havia vindo ao mundo para cuidar dos animais e por isso decidi estudar Veterinária - mal sabia eu que a única coisa que realmente fazia sentido naquela escolha, era me vestir de branco! – aprendi na faculdade essa brincadeira típica de criança americana, ou, no meu caso, de alguém com mais idade que está aprendendo outra língua e por isso mesmo é tratada como criança: knock knock who´s there? É uma bobagem, mas não é que funcionou? Estou até pensando em propor ao meu professor de francês que me ensine algo parecido, ou falando um português mais claro, use algum subterfúgio infantil no ensino, quem sabe não aprendo mais rápido?
Hoje resolvi brincar com vocês de knock knock who´s there? Esse textinho abaixo eu escrevi para a revista Vogue, mas aparentemente a minha veia poética estava muito aguçada e meio rococó no dia, o que fez o editor optar por uma receita! Agora me digam: quem é?
Sua presença aparentemente despojada, lânguida, quase blasé, esconde a capacidade natural de evocar sensações profundas, inusitadas, reprimidas e inexploradas. Pérolas brutas da natureza de simplicidade ímpar e personalidade livre. Penetram nas entranhas das papilas gustativas sem pedir licença e se apropriam do instante mágico do reconhecimento. Capazes de transformá-lo, persuadi-lo, incitá-lo a naturalmente revelar muito mais do que um gosto outrora conhecido. Remexem, violam, desvendam os códigos secretos do paladar sem compromisso algum com a disciplina. Sem prestar a mínima atenção ao que não interessa! São elas as responsáveis pela textura definitiva, o contraste necessário, a anarquia fundamental que enche de graça a gastronomia!
knock knock who´s there?
Até!
07/05/2008 ..
É...
Sua presença aparentemente despojada, lânguida, quase blasé, esconde a capacidade natural de evocar sensações profundas, inusitadas, reprimidas e inexploradas.
Grãos brancos...
Pérolas brutas da natureza de simplicidade ímpar e personalidade livre.
Colhidos a mão...
Penetram nas entranhas das papilas gustativas sem pedir licença e se apropriam do instante mágico do reconhecimento.
Estalam na boca antes de tudo e de todos...
Capazes de transformá-lo, persuadi-lo, incitá-lo a naturalmente revelar muito mais do que um gosto outrora conhecido.
Exaltam sabores...
Remexem, violam, desvendam os códigos secretos do paladar sem compromisso algum com a disciplina. Sem prestar a mínima atenção ao que não interessa!
Colocam-se onde bem entendem, entre a língua, sobre ela...
São elas as responsáveis pela textura definitiva, o contraste necessário, a anarquia fundamental que enche de graça a gastronomia!
Mas estão sempre no lugar certo!
knock knock who´s there?
Flor de sal!
Até!
08/05/2008 ..
Pois é...
Com tanta coisa interessante e instigante, como a flor de sal, para a gente se divertir na cozinha onde está a real necessidade das esferificações, desconstruções e desmagnetizações? Essa última eu acho que ainda não faz parte do vocabulário da cozinha atual. Mas, como tudo é possível, logo, logo pode fazer.
Quando mandei a minha lista de necessidades para a organização do Fórum Gastronômico da Espanha, deixei bem claro: não preciso de gastrovac, termomix e nem desfibrilador! Mas preciso desesperadamente de fogo e grelha! Naquela época o desfibrilador ainda não fazia parte do vocabulário dessa turma, mas soube que depois de me ouvirem falar sobre isso, na minha palestra, alguns cozinheiros-cientistas correram para o hospital mais próximo a procura de um! Ainda não foi relatado à sociedade científica o seu uso na gastronomia, mas que vão encontrar um, há vão!
Talvez esteja aí o sentido de tanto barulho. Nem ouso dizer barulho por nada porque respeito o tamanho desse barulho. Mas não acredito que nada disso vá ficar na memória gustativa de ninguém como um bom bacalhau com natas! Ou uma cenoura recém colhida doce como o cheiro da terra molhada. Ou a delicadeza de um assado suculento e caramelizado preparado em forno à lenha! Digo isso porque os pseudo-assados, preparados nessas geringonças de cozimento a vapor, não se preocupam com a alma e muito menos com os caramelos. Afinal como alguém sufocado dentro de um saco plástico sem ar poderia se preocupar com detalhes como esses? Como alguém nessa situação poderia pensar em se permitir viver a delícia de ser o que é?
Talvez eu esteja ficando velha. Ouvi dizer que sou considerada a mais radical defensora do fogo na cozinha. Nunca me imaginei radicalizar em nada, a não ser na busca pela excelência. Pode até ter uma pitada de rabugice aí, talvez acumulada pelos anos de trabalho, mas a verdadeira crença é a de que sem o domínio do fogo certamente não teríamos chegado até aqui. Sendo assim não seria uma ignorância “dar” para trás justo agora?
Até!
09/05/2008 ..
Contribuição...
Para um domingo de avental, forno e fogão!
Lombinho marinado em azeite e ervas frescas
Por Chef Roberta Sudbrack
Para 8 pessoas
Ingredientes:
2kg de lombinho de porco
2 talos de alho-poró
2 talos de salsão
2 cenouras
1 cebola
2 dentes de alho
2 folhas de louro
Ervas frescas: alecrim, tomilho, manjericão e sálvia a gosto
1 l de azeite de oliva extra-virgem
1 l de vinho branco seco
pimenta-do-reino moída na hora
sal
Modo de preparo:
No dia anterior ao preparo, coloque o pernil em um recipiente e cubra com os legumes cortados em pedaços bem pequenos, além do alho, o louro, as ervas, o azeite de oliva e o vinho. Vire a carne de vez em quando.
No dia seguinte, retire a carne e seque bem com papel absorvente. Tempere com sal e pimenta do reino moída na hora.
Em um tabuleiro coloque metade dos legumes e disponha a carne por cima. Regue com um pouco do líquido e cubra com papel-alumínio. Reserve o liquido restante para regar a carne durante o cozimento.
Asse em forno pré-aquecido a 180oC por duas horas, ou até a carne ficar macia, regando sempre que necessário com o líquido.
Retire o papel-alumínio e deixe dourar por todos os lados.
Retire a carne e tempere novamente com sal e pimenta do reino moída na hora.
Retire o excesso de gordura do tabuleiro e coloque na boca do fogão para dourar os legumes. Quando estiverem bem dourados acrescente ½ litro de água fria e raspe bem. Coe, passe para uma panela menor e deixe reduzir até encorpar. Tempere com sal e pimenta do reino moída na hora e sirva com o lombinho.
Até!
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